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O “Sim” Como Chão Para Viver

  • Foto do escritor: Fabio Brum
    Fabio Brum
  • 18 de mai.
  • 5 min de leitura

Continuidade, vínculo e a experiência de existir


Fábio Bisol Brum

Psicólogo e Psicanalista

CRP: 12/22712

Florianópolis, maio de 2026


Quando pensamos em um “sim” na relação com um bebê ou uma criança, é comum imaginarmos algo ligado à aprovação, à ausência de limites ou a uma atitude excessivamente permissiva. No entanto, ao longo do desenvolvimento emocional, talvez


o “sim” mais fundamental não esteja nas palavras, mas na possibilidade de uma experiência encontrar lugar na mente de alguém.


Antes mesmo de conseguir compreender a si próprio, o bebê depende profundamente de um outro capaz de recebê-lo emocionalmente. “Não basta nascer biologicamente para nascer psiquicamente”¹. Desde muito cedo, a experiência de existir vai sendo construída no encontro com um ambiente que acolhe, sustenta, interpreta e transforma aquilo que inicialmente chega de forma ainda muito primitiva. O “sim” começa justamente aí: na possibilidade de haver um espaço psíquico aberto para receber a existência daquele pequeno.

Talvez seja possível dizer que o primeiro “sim” acontece quando alguém começa lentamente a abrir espaço dentro de si para acolher um bebê ainda antes das palavras, antes da linguagem organizada, antes mesmo de uma clara diferenciação entre eu e outro. Durante a gestação, no nascimento e nos primeiros cuidados, o bebê vai sendo imaginado, pensado, sentido e investido emocionalmente. Há uma reorganização da vida psíquica daqueles que cuidam para que aquela nova existência possa encontrar lugar.

Winnicott² descreve algo semelhante ao falar da preocupação materna primária. Nos momentos iniciais da vida, quem cuida entra em uma espécie de sintonia emocional profunda com os estados do bebê. Isso implica, muitas vezes, dizer vários “nãos” para si mesmo temporariamente, para poder adaptar-se às necessidades daquele recém-nascido ainda tão dependente do ambiente. Esse movimento não é apenas dedicação prática; é uma abertura emocional radical para receber experiências que o bebê ainda não consegue suportar sozinho.

Quando experiências de cuidado, holding (sustentação), handling (manejo) e satisfação vão se repetindo de maneira suficientemente boa, algo mais do que a simples sobrevivência psíquica começa lentamente a acontecer. O bebê não apenas deixa de se desfazer emocionalmente: ele passa gradualmente a experimentar o mundo como um lugar onde pode repousar, brincar, explorar, desejar e encontrar o outro sem sentir-se constantemente ameaçado de ruptura.


A importância do “sim” está aí: na possibilidade de sentir que viver pode ser uma experiência boa de ser continuada.


Não apenas suportável, mas viva, criativa e capaz de despertar curiosidade, prazer e interesse pelo mundo.

E, quem sabe, por isso o “sim” primordial não seja simplesmente satisfação imediata ou ausência de frustração. Ele é, antes, a construção de uma continuidade suficientemente estável para que, aos poucos, o bebê possa começar a suportar pequenas falhas, esperas, ausências e desencontros sem sentir que sua experiência de existir está se desfazendo.

Esse ponto é muito importante porque o desenvolvimento não acontece apenas através do acolhimento das experiências agradáveis. Crescer implica também encontrar limites, diferenças, frustrações e separações. No entanto, essas experiências só podem exercer uma função estruturante quando acontecem sobre um chão emocional suficientemente bom. Sem isso, o limite pode ser vivido como humilhação, abandono ou ruptura do vínculo.

Por isso, talvez seja importante diferenciar o “não” constituinte de formas mais brutas de interrupção emocional. Um “não” estruturante não destrói a experiência da criança. Ele não diz: “o que tu sentes não pode existir”. Pelo contrário: ele tenta ajudar a criança a encontrar formas mais suportáveis de viver aquilo que sente dentro de uma relação que continua existindo.

Quando uma professora segura uma criança que tenta bater no colega e diz: “não posso deixar você bater”, mas consegue ao mesmo tempo reconhecer sua raiva, sua frustração ou seu excesso, algo muito importante acontece. O limite permanece, mas a experiência da criança continua encontrando lugar no vínculo.

Corrigir um comportamento pode ser importante. Mas, quando isso acontece sem que a experiência emocional da criança encontre lugar na relação, o risco é que ela aprenda apenas a interromper uma ação, sem conseguir compreender ou transformar aquilo que estava vivendo internamente. Isso é diferente de dizer apenas: “o que você está fazendo é errado, não pode”, o que pode sugerir para a criança que aquilo que sente ou experimenta naquele momento não pode existir, invalidando aspectos importantes do seu mundo interno.

Aos poucos, esse tipo de experiência ajuda a criança a suportar diferenças, esperas, frustrações e separações sem perder totalmente a continuidade de si mesma.

E é justamente aí que o “não” começa a exercer sua função estruturante. Não apenas por frustrar impulsos, mas por ajudar a criança a transformar experiências imediatas em experiências que possam ser pensadas, simbolizadas e compartilhadas. O desenvolvimento da capacidade simbólica depende profundamente dessa possibilidade de transformar o vivido dentro de uma relação.

Bion³ nos ajuda muito a compreender esse processo. Algumas experiências emocionais chegam de forma tão intensa que ainda não podem ser pensadas pela criança. Elas aparecem no corpo, no choro, na agitação, na agressividade, no excesso ou até mesmo no silêncio. O bebê — e também todos nós — frequentemente comunica através da ação aquilo que ainda não consegue representar simbolicamente.

Nessas situações, quem cuida é convocado a receber algo emocionalmente difícil. Muitas vezes, isso desperta angústia, irritação, impotência, confusão ou cansaço. Por isso,


transformar o que uma criança sente implica também transformar aquilo que sentimos junto com ela.


Esse talvez seja um dos aspectos mais delicados do cuidado: suportar ser afetado sem devolver imediatamente à criança aquilo que ela colocou em nós de maneira bruta.

O problema não é sentir. O problema surge quando aquilo que sentimos não encontra espaço para ganhar pensamento. Quando não conseguimos transformar emocionalmente aquilo que a criança desperta em nós, corremos o risco de devolver cru aquilo que recebemos cru. Nessas horas, o vínculo deixa de funcionar como espaço de transformação e passa a reproduzir excessos emocionais sem elaboração.

Isso é muito importante no cotidiano de quem cuida de crianças. Muitas vezes, pais e professoras se angustiam por imaginar que uma boa sala de aula, ou de casa, deveria funcionar sem conflitos, disputas ou momentos difíceis. No entanto, uma sala viva não é uma sala sem conflitos. Crianças brigam, disputam, sentem ciúmes, querem exclusividade, frustram-se, reparam, brincam, encantam-se e desejam ser vistas. Tudo isso faz parte da vida emocional compartilhada e do amadurecimento psíquico.

O objetivo do desenvolvimento não é eliminar conflitos, mas construir condições emocionais para que eles possam ser atravessados sem destruição da experiência de existir. O “sim” talvez seja justamente tudo aquilo que ajuda a construir esse chão emocional.

Um chão que permite, gradualmente, que a criança vá ao encontro do outro, do mundo, das diferenças, das ausências e da realidade compartilhada sem precisar se desfazer emocionalmente diante disso.


É assim que a ausência começa lentamente a ser construída. Não como abandono brusco, mas como uma experiência possível de ser suportada porque algo da presença continua vivo dentro do vínculo. Aos poucos, a criança pode descobrir que desencontros, limites e separações não significam necessariamente perda total do outro ou perda de si mesma.

Talvez o “sim” mais profundo não seja proteger a criança da realidade, mas ajudá-la a construir condições emocionais para poder encontrá-la sem perder a continuidade de existir. E, quando essa continuidade falha ou vacila, encontrar novamente no vínculo a possibilidade de transformação, reparação e reencontro.

Talvez seja isso que, desde muito cedo, ajuda alguém a poder dizer, pouco a pouco: sim, eu posso existir aqui. 

Sim, a vida!⁴


________________________________________

¹ GOLSE, Bernard. Do sentimento de ser ao sentimento de existir do bebê. 1. ed. Belo Horizonte: Instituto Langage, 2023. 128 p.
² WINNICOTT, Donald W. “A mãe suficientemente boa”. In: WINNICOTT, Donald W. Bebês e suas mães. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
³ BION, Wilfred R. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
⁴ BISOL, José Paulo. Sim, a vida!.
 
 

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