Quando a experiência não encontra onde pousar
- Fabio Brum
- 26 de abr.
- 13 min de leitura
Adolescência e as condições de elaboração psíquica no mundo contemporâneo
Fábio Bisol Brum
Psicólogo e Psicanalista
CRP: 12/22712
Florianópolis, abril de 2026
Os dados recentes sobre a saúde mental de adolescentes no Brasil têm chamado atenção. Mas talvez a questão não seja apenas o aumento do sofrimento, e sim as condições em que esse sofrimento pode — ou não — encontrar lugar. Este texto propõe uma leitura psicanalítica desses dados, articulando clínica e contemporaneidade para pensar o que está em jogo hoje na experiência dos jovens.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE/IBGE 2024) aponta para um quadro preocupante, com aumento de relatos de tristeza frequente, sensação de que a vida não vale a pena, vontade de se machucar, além de níveis elevados de insatisfação corporal e experiências de bullying. Esses indicadores aparecem de forma ainda mais intensa entre as meninas e revelam não apenas a presença do sofrimento, mas sua persistência no cotidiano dos jovens.
Mas talvez a questão não seja apenas o aumento do sofrimento, e sim o que, hoje, está acontecendo com as condições em que esse sofrimento poderia ser vivido, compartilhado e transformado.
A adolescência sempre foi um tempo de intensificação da experiência, no corpo, nas relações e na forma como o sujeito passa a se perceber e a ser percebido pelo outro. Isso não é novo. O que talvez se altere, hoje, não seja a intensidade do que é vivido, mas o destino que essas vivências encontram, não apenas no intrapsíquico, mas também nos espaços por onde os jovens circulam, se relacionam e constroem vínculos.
Vivemos em um tempo que ampliou possibilidades de comunicação, encurtou distâncias e expandiu o acesso ao conhecimento. Ao mesmo tempo, as experiências tendem a se suceder rapidamente, muitas vezes sem encontrar tempo, escuta ou continuidade — o que limita as condições para que possam se organizar psiquicamente.
As próprias condições temporais da experiência parecem alteradas. O que é vivido nem sempre encontra intervalos ou pausas suficientes para ser retomado, permanecendo muitas vezes como algo imediato, que se acumula ou se repete, fixando-se no tempo.
Essa alteração pode ser observada também na forma como certas experiências se apresentam e se mantêm no cotidiano dos adolescentes. A própria PeNSE mostra que o bullying se intensificou entre 2019 e 2024 e que a insatisfação corporal vem aumentando ao longo das edições da pesquisa, indicando que aquilo que é vivido nem sempre encontra vias para se organizar psiquicamente — o que talvez ajude a compreender por que tantos adolescentes relatam tristeza frequente ou sensação de vazio, como se a experiência não encontrasse onde pousar, permanecendo em circulação e deixando marcas que não se integram facilmente.¹
Nem tudo o que é vivido se torna experiência. Há vivências que atravessam o sujeito, produzem efeitos, deixam marcas, mas não chegam necessariamente a se organizar como algo que possa ser reconhecido, pensado ou narrado. Para que uma vivência se torne experiência psíquica, é preciso que encontre algum grau de ligação, de forma e de continuidade, seja no mundo interno, seja no encontro com um outro capaz de sustentá-la.
A ligação, aqui, torna-se central: articular o que é vivido, dar-lhe alguma forma e sustentá-lo ao longo do tempo. Quando isso não acontece, o vivido pode até se expressar, mas não se organiza como experiência.
Não é só que os adolescentes estão mais tristes. Há algo de mais complexo na forma como isso é vivido. Não se trata apenas de vivências que não encontram lugar, mas de vivências que se acumulam, se expressam e até encontram relações — sem que consigam se sustentar, retornando ou insistindo sem encontrar deslocamento.
Os dados mostram que muitos adolescentes relatam ter amigos e conviver com suas famílias, mas ainda assim se sentem sozinhos ou pouco compreendidos.¹ Isso sugere que não estamos apenas diante da ausência de vínculos, mas de uma tensão entre estar com o outro e poder se encontrar como sujeito no olhar de alguém.
No contexto familiar, isso se expressa de forma particularmente sensível. A convivência se mantém, em muitos casos, mas nem sempre se traduz em uma experiência de reconhecimento ou sustentação emocional. A presença do outro não garante, por si só, que aquilo que é vivido encontre um lugar onde possa ser acolhido ou nomeado.
Esse pode ser um dos pontos mais delicados do nosso tempo: não apenas a fragilidade dos vínculos, mas a dificuldade de que eles operem como espaços de transformação da experiência.
Há algo de mais solitário — e, ao mesmo tempo, mais fragmentado — na forma como vivem o que lhes acontece.
Se aquilo que é vivido não consegue se ligar, o que acontece com isso? Em alguns casos, tende a se descarregar mais diretamente, seja na ação, no corpo ou em formas de expressão pouco mediadas. Em outros, retorna de maneira repetitiva, insistindo — ou permanece como um estado difuso, difícil de nomear, que se impõe sem encontrar direção. Ainda assim, não desaparece: pode deixar marcas que não se integram facilmente, aparecendo como reações intensas, sensações difíceis de explicar ou formas de sofrimento que o próprio sujeito nem sempre consegue compreender.
Essas dificuldades não se dão apenas no plano individual, mas também nas condições do próprio ambiente em que os jovens vivem. Nos últimos anos, essas condições têm se expressado em situações em que o próprio ambiente se torna instável ou imprevisível, produzindo vivências marcadas por ruptura, descontinuidade e exposição ao desamparo, como em recentes eventos climáticos extremos.
Esse cenário foi intensificado pela pandemia de COVID-19. O isolamento, a interrupção da vida escolar presencial e a intensificação do uso das telas produziram efeitos que ainda reverberam. Para muitos jovens, tratou-se de uma experiência vivida em suspensão, com redução importante dos espaços de encontro.
Se a pandemia intensificou esse movimento, é no campo digital que ele encontra uma de suas expressões mais consistentes. Nos ambientes digitais, muitas tentativas de vínculo se intensificam, mas nem sempre encontram condições de sustentação. Há presença, mas nem sempre encontro; há troca, mas nem sempre continuidade; há exposição, mas nem sempre reconhecimento.
Em muitos casos, o sujeito não escolhe tanto quanto é capturado: por imagens, discursos e dinâmicas que se impõem e mantêm a atenção. O tempo da experiência não se organiza — é interrompido e substituído antes que algo possa se sustentar. E o outro, quando não responde como alteridade, tende a se tornar superfície de projeção, mais do que alguém com quem se pode estabelecer relação.
Tornar visível, porém, não é o mesmo que simbolizar. Aquilo que se mostra ou se expõe pode não encontrar condições de ser representado, pensado ou integrado. Em alguns casos, a expressão funciona menos como elaboração e mais como tentativa de descarregar ou tornar suportável o que é vivido. A simbolização implica a possibilidade de dar forma psíquica ao vivido, de situá-lo no tempo e de articulá-lo com outras experiências — o que nem sempre se encontra garantido nesses contextos.
Assim, a exposição não assegura que aquilo que aparece possa ser retomado e ganhar sentido. Pode, ao contrário, intensificar a sensação de não reconhecimento, mesmo quando há visibilidade. Porque não é apenas ver ou ser visto que constitui a experiência, mas a possibilidade de afetar e ser afetado na relação.
A própria experiência de bullying, apontada pela pesquisa, ganha novas formas nesses espaços, ampliando sua persistência — inclusive no ambiente digital, onde uma parcela significativa dos adolescentes relata já ter sofrido esse tipo de violência.¹ Diferente de outras épocas, essas experiências podem não se encerrar no tempo ou no espaço em que ocorreram. Permanecem em circulação, podem ser reativadas continuamente e retornam como repetição ou como intensificação de estados afetivos difíceis de nomear.
Soma-se a isso a possibilidade de anonimato. Em muitos contextos, pode-se dizer quase tudo como se não houvesse um outro ali. O outro aparece, por vezes, mais como superfície de projeção do que como alguém capaz de sentir e responder. Quando essa dimensão se enfraquece, não é apenas o laço que se fragiliza, mas a própria possibilidade de reconhecer o outro como alguém.
Os conteúdos que circulam nesses ambientes também não são neutros. São organizados por lógicas que privilegiam aquilo que captura a atenção e intensifica reações. A experiência tende, assim, a ser continuamente interrompida e substituída por novos estímulos, dificultando a continuidade necessária para que algo ganhe sentido.
A isso se somam a desinformação, as bolhas digitais e a produção de conteúdos cada vez mais difíceis de distinguir do real. O que é vivido, o que é visto e o que é construído passam a se aproximar, fragilizando as condições pelas quais o sujeito consegue diferenciar e organizar o que vive.
Nesse movimento, tende a se fortalecer uma relação com a realidade mais centrada na confirmação do próprio eu do que na abertura ao encontro com o outro. Aquilo que circula ganha valor não necessariamente por sua consistência, mas por confirmar o já conhecido, o já sentido ou o já esperado. A experiência corre, assim, o risco de se fechar sobre si mesma, limitando as possibilidades de deslocamento em direção a novos sentidos.
Como se o próprio espaço psíquico necessário para que a experiência se organize também se encurtasse.
Diante dessas transformações nos modos de encontro e relação, torna-se necessário perguntar como a própria sociedade vem se organizando para lidar com as exigências e impasses da contemporaneidade. Que respostas têm sido construídas frente a vivências que se intensificam, mas nem sempre encontram tempo ou continuidade?
Torna-se relevante considerar o que acontece quando as instituições públicas perdem consistência simbólica e capacidade de organização da vida comum. Não apenas porque falham em sua dimensão concreta, mas porque deixam de sustentar, para o sujeito, referências de continuidade, legitimidade e pertencimento.
Quando essas referências se enfraquecem, isso não se traduz apenas em uma perda externa de proteção. Incide diretamente sobre a forma como o sujeito se situa em relação a si e ao outro. O vivido tende a se tornar mais imediato, mais instável e mais dependente de circuitos próximos de validação. O limite pode ser experimentado menos como organizador e mais como algo arbitrário, enquanto o pertencimento passa a se apoiar em vínculos mais restritos — por vezes mais frágeis ou mais rígidos.
A experiência de si pode, então, se tornar mais exposta e mais exigida, ao mesmo tempo em que encontra menos sustentação. Como se faltasse um campo compartilhado mais amplo onde pudesse se diferenciar e ganhar contornos.
Esse movimento também aparece na forma como os conflitos se apresentam no campo social. Conflitos não são novos, nem necessariamente problemáticos. Podem, inclusive, abrir espaço para transformações, quando encontram condições de elaboração. No entanto, em muitos contextos, observa-se uma dificuldade crescente de sustentar a diferença sem que ela se transforme rapidamente em oposição. O outro deixa de ser alguém com quem se pode estabelecer relação para se tornar alguém a ser refutado, evitado ou excluído do campo de interlocução.
Não se trata apenas de divergência, mas de uma mudança na forma como a alteridade é vivida. Ao mesmo tempo em que se ampliam as possibilidades de reconhecimento das diferenças, também parece se tornar mais difícil sustentar aquilo que não se deixa reduzir a posições mais fixas ou familiares. O campo comum tende a se fragmentar, e a experiência de partilhar um mundo com o outro — mesmo quando ele pensa, sente ou vive de forma diferente — se torna mais instável.
Família, escola e sociedade não são apenas cenários onde isso acontece. São campos de relação onde a experiência pode encontrar — ou não — um outro capaz de recebê-la e sustentá-la. No entanto, esses espaços também são atravessados pelas mesmas pressões culturais, sociais e econômicas que incidem sobre os jovens.
No caso da escola, isso se expressa de forma particularmente sensível. Para uma parcela significativa dos estudantes, o espaço que deveria oferecer continuidade, pertencimento e mediação também se apresenta como lugar de exposição, insegurança ou sofrimento. Os dados recentes indicam não apenas a presença persistente do bullying, mas também situações em que o medo da violência chega a afastar adolescentes da própria frequência escolar.¹ Ao mesmo tempo, muitos desses contextos contam com poucos recursos de escuta e apoio emocional, o que limita a possibilidade de que aquilo que é vivido encontre vias de elaboração na relação com o outro.
Em muitos casos, não se trata da ausência de vínculos, mas da dificuldade de sustentá-los. As relações se estabelecem, mas nem sempre se mantêm no tempo — e, quando se rompem, deixam de operar como espaços de continuidade e ligação da experiência.
Mas esse cenário não se apresenta da mesma forma para todos.
Como uma menina pode se sentir segura diante do aumento das diferentes formas de violência contra as mulheres, quando os próprios espaços de cuidado e proteção também se mostram atravessados por essas violências? Como se reconhecer no próprio corpo quando a insatisfação corporal cresce — como mostram os dados da pesquisa — e a imagem ideal circula de forma intensa nos meios digitais?
Nesse contexto, torna-se mais difícil diferenciar aquilo que pode operar como ideal — oferecendo direção e possibilidade de identificação — daquilo que se configura como idealização, muitas vezes rígida e inatingível. Quando essa distinção se fragiliza, o corpo deixa de ser lugar de experiência e passa a ser constantemente confrontado com imagens que não podem ser habitadas, intensificando a sensação de inadequação.
E como um menino vai organizar sua identidade em um cenário em que as relações entre os gêneros passam por transformações importantes, ao mesmo tempo em que persistem modelos de masculinidade marcados pela negação da vulnerabilidade e, muitas vezes, pela naturalização da violência? A dificuldade de reconhecer o outro em sua diferença pode se articular com formas de afirmação que passam pela desqualificação, pelo controle ou pela agressividade, incidindo diretamente sobre as relações com as mulheres.
Ao mesmo tempo, a limitação das possibilidades de expressão emocional pode levar a uma intensificação de estados internos que encontram poucas vias de simbolização, sendo mais frequentemente descarregados na ação, no corpo ou em formas de sofrimento pouco nomeadas — como irritabilidade constante, sensação de vazio ou dificuldade de se situar nas próprias experiências.
E o jovem negro da periferia — como se constituir como sujeito quando, não raramente, é visto com inferioridade ou como ameaça antes mesmo de ser reconhecido como alguém digno de cuidado? Essa experiência incide diretamente na possibilidade de construir uma imagem de si que possa ser habitada.
A experiência de si tende a se organizar sob tensão constante, marcada por estados de alerta, antecipação de perigo ou necessidade de contenção de si mesmo. Ao mesmo tempo, pode se constituir uma imagem atravessada pela não aceitação — como se algo de si fosse inadequado, indesejável ou menos digno de reconhecimento. Essas marcas incidem sobre o sentimento de pertencimento e sobre a possibilidade de se reconhecer como alguém que pode existir com legitimidade nas relações.
Quando não encontram reconhecimento ou mediação, podem se desdobrar em estados marcados por tonalidades depressivas, sentimentos persistentes de desvalorização, fragilização da autoestima, além de movimentos de retraimento ou formas mais abruptas de expressão.
O sofrimento tende, então, a se apresentar como excesso — na hipervigilância, na dificuldade de confiar ou na sensação persistente de não ter um lugar onde se possa existir com segurança.
Talvez seja justamente aqui que a pergunta precise mudar.
Que tipo de vínculos estamos, de fato, conseguindo sustentar? E em que medida os ambientes em que os jovens circulam têm conseguido se adaptar às necessidades emocionais, oferecendo condições para que aquilo que se vive encontre continuidade, ligação e possibilidade de elaboração?
E até que ponto esses ambientes têm possibilitado que os jovens se sintam podendo existir de forma mais espontânea — ou, ainda, habitar a si mesmos nas relações que constroem?
No limite, o que está em jogo não é apenas o sofrimento, mas a possibilidade de que algo possa acontecer entre o eu e o outro.
Isso talvez também ajude a compreender o aumento de comportamentos de autoagressão apontados pela pesquisa. O corpo pode se tornar um lugar de inscrição e também de regulação. O ataque ao corpo pode funcionar como tentativa de dar contorno ao que é vivido como difuso, de interromper estados de angústia ou de produzir um limite onde ele falha — atingindo, por vezes, o próprio sentimento de si.
Aquilo que não encontra palavras pode encontrar no corpo uma via como tentativa de lidar com algo que insiste e não encontra um destino psíquico. O corpo pode se tornar um dos poucos lugares possíveis de inscrição e regulação, diante de um excesso que não pôde ser transformado. Passa, então, a operar como palco de tensões e afetos que não se integraram, aparecendo como dor, sintoma ou formas de sofrimento que se impõem ao sujeito mais do que podem ser reconhecidas ou compreendidas.
Não por acaso, os dados recentes apontam para o aumento de ideação suicida e de tentativas entre adolescentes, indicando a gravidade dessas formas de sofrimento.¹ Ainda assim, essas vias não garantem, por si só, que o que é vivido encontre outro destino, podendo permanecer como expressão que não se integra nem se organiza como experiência.
Talvez seja importante, no entanto, fazer um pequeno deslocamento. Se, por um lado, os dados e a clínica nos mostram o aumento do sofrimento, por outro, seria apressado concluir que estamos apenas diante de uma perda. Há algo no nosso tempo que também abre possibilidades — ainda que elas nem sempre estejam imediatamente disponíveis.
A mesma rede que, muitas vezes, intensifica a comparação, a exposição e a sensação de inadequação, também pode criar formas inéditas de encontro. Adolescentes que, em outros contextos, permaneceriam isolados em suas diferenças, hoje conseguem encontrar pares, construir pertencimento, nomear experiências que antes ficavam sem linguagem. Há uma ampliação das formas de expressão, seja pela imagem, pela escrita, pela música e pelos múltiplos modos de circulação da palavra, e, com isso, a possibilidade de que experiências internas encontrem alguma forma de inscrição, ainda que inicial. Mesmo quando isso acontece de forma fragmentada ou excessiva, ainda assim aponta para um movimento psíquico que não é indiferente, uma tentativa de ligação que insiste, mesmo quando não se completa.
Nesse cenário, também somos atravessados por ferramentas cada vez mais sofisticadas de produção de imagens, discursos e presenças, nas quais os limites entre o vivido, o representado e o simulado se tornam menos nítidos. Em alguns casos, essas possibilidades favorecem a expressão e a criação; em outros, operam de forma intrusiva e violenta, como quando imagens são manipuladas e expostas sem consentimento.
Ainda assim, não se trata apenas de exposição, mas de uma invasão da própria experiência de si, na medida em que o que circula pode ser vivido como parte da realidade do sujeito. As marcas produzidas nem sempre se integram, podendo reaparecer de forma intrusiva, fragmentada ou desorganizada — como imagens que retornam ou estados afetivos intensos. Soma-se a isso a lógica de permanência do ambiente digital, em que aquilo que circula tende a não desaparecer, podendo retornar e insistir como traços ativos no psiquismo, sem que o tempo produza deslocamento.
Da mesma forma, a própria sensibilidade ao sofrimento parece ter se ampliado, e questões que antes eram silenciadas passam a ser nomeadas, discutidas e reconhecidas. Isso também transforma o campo. Se, antes, o sofrimento podia permanecer encapsulado, hoje ele tende a aparecer mais, às vezes de forma crua, pouco elaborada, mas ainda assim visível. Talvez isso nos coloque diante de uma tarefa diferente: não apenas fazer aparecer aquilo que estava escondido, mas sustentar condições para que aquilo que já aparece possa, pouco a pouco, encontrar continuidade e algum nível de organização.
Talvez, então, o nosso tempo nos coloque diante de um duplo movimento: de um lado, o risco do excesso sem mediação; de outro, a ampliação das possibilidades de expressão e encontro. Entre esses dois pólos, não há uma escolha simples; há um campo em tensão. Penso ser justamente aí que se situa o trabalho clínico, educativo e institucional hoje: sustentar espaços onde aquilo que se vive possa encontrar formas de elaboração no encontro com o outro.
Podemos, então, ir um pouco além. Se algo desses dados nos convoca, não é apenas a olhar para o sofrimento dos adolescentes, mas para as condições em que ele se constitui.
Porque, em alguma medida, o que está em jogo não é apenas o destino do sujeito, mas o destino das relações. Quanto mais nos organizamos a partir do “eu”, mais corremos o risco de empobrecer o “nós” — e, no entanto, é justamente nesse “nós” que a experiência pode ganhar espessura.
Não um “nós” que dissolve o sujeito, mas um campo onde ele possa existir em relação, ser afetado, reconhecido e, a partir disso, continuar a se constituir.
Talvez o trabalho hoje esteja menos em oferecer respostas e mais em sustentar condições para que aquilo que ainda não encontrou forma possa, pouco a pouco, ganhar contorno na relação.
Entre o eu e o outro.
E também entre as diferentes partes de si.
Fábio Bisol Brum — Psicólogo e Psicanalista
Este ensaio teórico se constrói a partir do diálogo com diferentes autores da psicanálise e do pensamento contemporâneo — entre eles Freud, Green, Winnicott, Bion, Roussillon, Tisseron, Byung-Chul Han e Hartmut Rosa — tendo como base os dados do IBGE (PeNSE 2024).
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